Insignificância e poder: o homem diante do sublime

Antonino Condorelli
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A trilha sonora deste post é Planeta Sonho, de Flávio Venturini. Ouça e assista:

A primeira sensação que atravessa o nosso corpo quando nos defrontamos pela primeira vez com visões sublimes – no sentido que o filósofo Alain De Botton, inspirando-se em Edmund Burke, atribui à expressão: “o sentimento provocado por certos tipos de paisagens muito grandes, impressionantes e perigosas. Lugares como os oceanos abertos, as altas montanhas, as calotas polares[1]” – é um certo desconcerto, às vezes um calafrio: improvisamente, nos sentimos pequenos, frágeis, insignificantes. Uma cordilheira nevada, um deserto, um oceano, uma selva imensa que se perde no horizonte podem estimular-nos a “aceitar as limitações impostas à nossa vontade[2]” a reconhecer que há energias e exigências maiores do que as que experienciamos como as do nosso “eu”.

Aproximando-se do Glaciar Balmaceda, Província de Última Esperanza, Patagônia Chilena
Aproximando-se do Glaciar Balmaceda, Província de Última Esperanza, Patagônia Chilena

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O Vagamundo: Os últimos confins da Terra

Antonino Condorelli
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A trilha sonora deste post é El Hombre y la Tierra de Geronación. Ouça e assista:
http://www.youtube.com/watch?v=haPgqL6Ff24

El hombre es tierra que anda (Provérbio Inca)

Um dia, de repente, me senti muito mais do que um habitante da Terra… A senti pulsar em minhas veias, vibrar em minha pele, dançar em meu corpo; a senti impregnada em cada uma das minhas células, esculpida em cada dobra da minha psique. Me senti Terra que pensa, que sente, que ama, que chora, que ri, que edifica e destrói. Por alguns fugazes instantes deixei de me perceber como um hóspede, um viajante, um corpo estranho projetado pelo acaso na superfície deste planeta… Naquele relâmpago epifânico, me experienciei como um filho da Terra que jamais cortou seu cordão umbilical, apesar de nunca tê-lo percebido; me senti uma célula, uma parcela indissociável de um gigantesco corpo vivo, um irmão das rochas, das árvores, das nuvens, dos rios, os lagos e os oceanos; me senti inseparável do vento, da chuva, das folhas, dos vulcões e das geleiras… Naqueles instantes, que não lembro mais se duraram segundos ou minutos, tive um vislumbre simultaneamente corporal e psíquico, racional e emotivo duma experiência que alguns cientistas contemporâneos descrevem com a sugestiva imagem de Géia, deusa grega que encarna a Mãe-Terra, e que povoa o universo mítico de muitos povos como arquétipo da Grande-Mãe, Deusa-Mãe, Pacha Mama, etc. Continuar lendo O Vagamundo: Os últimos confins da Terra


Caminhante, são tuas pegadas o caminho, e nada mais

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A trilha sonora deste post é Cantares – Letra: Joan Manuel Serrat e Antonio Machado; Música e interpretação: Joan Manuel Serrat.

Sou europeu e fui adotado pela América do Sul. Ao longo de mais de trinta anos de existência, vivi em três países de diferentes continentes e passei longos períodos em outros dois. Sempre que pude, embora não tanto quanto teria gostado, devido a uma situação financeira sempre instável, fiz longas viagens de mochila pelo mundo. Sempre me senti atraído pelo encontro com o diferente; sempre procurei o deslumbramento, a vertigem, centelhas de significado para a minha existência no contato com outros lugares, outros povos, outras paisagens, no mergulho – embora por períodos breves – em ambientes não-urbanos. Sempre senti um impulso irresistível para o conhecimento e a mestiçagem com outros estilos de vida, com outras maneiras de pensar o mundo e de vivê-lo. Nunca me senti enraizado em lugar algum, sentindo à flor da pele aquela sensação de estrangereidade que Claude Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos, assumiu como sua condição permanente, um sentimento de estranhamento constante que o fazia sentir-se estrangeiro em qualquer lugar, inclusive em sua cultura de origem.

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