Sabe aquela pessoa da família que é a última que você imagina que poderia largar tudo e morar fora do país? Pois é, essa para mim era a minha prima, Suzy. Motivo: ela é filha única e muitíssimo apegada aos pais, além disso, tinha no Brasil uma carreira sólida e promissora em um banco. Mas, em 2007, ela surpreendeu a todos da família, quando decidiu mudar-se para Barcelona (hoje ela vive em Terrassa, que fica na região metropolitana, a 28km de Barcelona), na Espanha. Foi para lá porque se apaixonou pelo namorado, mas também pela cidade, que tinha conhecido alguns meses antes.

Há quase 10 anos vivendo na Catalunha, ela enfrentou a severa crise espanhola, mas superou todas as dificuldades e conseguiu o que queria. Construiu uma família linda e retomou a carreira de bancária, em um banco espanhol. Tenho muito orgulho da história dela e, por isso, não poderia deixar de compartilhar com vocês. Nesta entrevista, ela conta como foi sua ida para Barcelona, como foi difícil a adaptação, enfrentar uma das maiores crises financeiras da Europa e como conseguiu conquistar o que sonhava, quando chegou ao país.

Suzy, com a filha, Laia, e o marido, Jordi, vestidos com a camisa do time do "Barça"
Suzy, com a filha, Laia, e o marido, Jordi, vestidos com a camisa do time do “Barça”

Jordi e Suzy
Jordi e Suzy

Compartilhe Viagens: Há quanto tempo você mora na Catalunha, Espanha, e o que motivou a mudança para o país?

Suzy Borges: Desde julho de 2007, motivada, principalmente, pelo amor!

Você já conhecia o país antes? Caso sim, quando você esteve como turista, você sentiu que um dia poderia morar aí?

Em março de 2007, vim passar um mês de férias com uma amiga da universidade e conhecer o meu namorado virtual e me apaixonei, não só por ele. Eu e minha amiga, sempre que estávamos passeando por Barcelona, comentávamos que incrível seria viver aqui e que não nos custaria nada nos adaptarmos. Nem imaginava que três meses depois, deixaria tudo para viver aqui.

Como foi a adaptação no país, o que foi mais difícil? Você já falava o idioma local ou ainda teve que aprender?

A adaptação não foi tão fácil como imaginava. A distância da família e amigos, sem trabalho, sem falar os idiomas (espanhol e catalão) e, a tudo isso, logo somou o frio do outono/inverno. Mas, sem dúvida, o mais difícil foi ficar longe dos meus pais, sou filha única e muito amiga da minha mãe, e a ficha só caiu quando falei com ela pela primeira vez por Skype. Naquela época, que não tinha nem documentação, nem trabalho e o que mais me angustiava era não saber qual seria a próxima vez que poderia voltar ao Brasil.

Suzy, com Laia, enrolada com a bandeira do Brasil, e os pais que a visitam todos os anos
Suzy, com Laia, enrolada com a bandeira do Brasil, e os pais (João e Ranúbia) que a visitam todos os anos.

Você tem uma filha nascida na Espanha, como fica a nacionalidade dela? E você se preocupa em educá-la para que ela tenha algo de brasileira também? O que você faz para isso?

Laia tem dupla nacionalidade, ela diz q é “catalanobrasilenha”. Falo com ela em português, mas ela me responde em espanhol, só fala português com meus pais ou quando quer me agradar. Adora tapioca, feijão com arroz e pão de queijo e, quando era menorzinha, Galinha Pintadinha e Xuxa eram a trilha sonora de casa. Hoje ela ama o Sitio do Pica Pau Amarelo e a Turma da Mônica.

Uma das maiores dificuldades de imigrantes brasileiros é de encontrar emprego nas áreas em que atuavam no Brasil e você, depois de algum tempo, conseguiu isso. Com o que você trabalha hoje e o que foi necessário fazer (e pelo o que você passou) para chegar até onde está?

Sou bancária, trabalhei 3 anos no Banco Santander, no Brasil, e pensava que, por haver trabalhado em um banco espanhol, as coisas seriam mais fáceis. O que eu não contava era com uma crise financeira tão longa e profunda como a que passamos e justo agora começamos a sair. Sem um título universitário com validade na Espanha e sem falar o idioma corretamente, as coisas não estavam muito a meu favor, então, tive que trabalhar no que aparecia, desde entregar panfletos nas portas de discoteca em pleno inverno, passando por restaurante (foi uma carreira curta de dois finais de semana, realmente não tenho vocação para isso), também fiz alguns anúncios de tv, fui vendedora de óptica, trabalhei em companhia de telefone e atenção ao cliente em uma empresa de transporte. O nascimento de Laia me deu um gás e foi quando eu percebi que se queria voltar a trabalhar no banco teria que voltar a estudar e me matriculei na universidade de Barcelona para homologar meu título e disse que não aceitaria outro trabalho que não fosse em banco. As primeiras oportunidades vieram de empresas de trabalho temporário, mas, por fim, consegui o que queria.

Suzy com a filha, Laia.
Suzy com a filha, Laia.

Como fica o relacionamento com a família morando fora do país? De quanto em quanto tempo vocês se veem e como sua filha se relaciona com a família brasileira?

Procuro que meus pais venham todo ano passar os três meses das ferias de verão de Laia, assim passamos mais tempo juntos e eu não tenho que pensar com quem deixar minha filha para trabalhar (rs). Ir ao Brasil matar saudades do resto da família, amigos e comida, a cada dois anos. Mas estamos sempre em contato pelos grupos de WhatsApp.

Do que você sente mais falta no Brasil?

A alegria, a capacidade de improvisar uma festa, isso aqui não existe!

O que tem na Espanha que se tivesse no Brasil faria você voltar?

Segurança, outras muitas coisas mais, mas acho que a segurança é o principal.

Falando nisso, você já teve vontade ou tem planos de voltar para o Brasil?

Sim, é meu país. Mas com as notícias que vêm de lá para cá penso… vontade dá e passa! E aqui estou muito bem, então o plano é trazer meus pais, mas será missão quase impossível. Algum dia…

A Espanha foi um dos países europeus que sentiu um grande impacto da crise econômica. Como está a situação agora e como foi enfrentar esta crise?

Parece que começamos a sair dela, se nota uma melhora. O medo de perder o posto de trabalho já não é a principal preocupação do espanhol. A economia já começa a gerar novos postos de trabalho, mas maioria é de trabalho temporário de meia jornada e com salários muito inferiores aos vistos antes da crises. Foi um período muito duro, em que muitas famílias perderam tudo, trabalho, casa. Nas ruas, as caras das pessoas eram tristes e a pergunta obrigatória quando encontrava um amigo que não via com frequência era se estava trabalhando?! Em 2007, um salário de mil euros era ridículo e, em plena crise, quem recebia isso era um verdadeiro privilegiado.

Hoje você já se sente um pouco “espanhola”, ou melhor, “catalã”?

Eu sou o contrário de Laia. Sou uma “brasicatalana”. Acho que minha adaptação, apesar de tudo, foi bastante rápida. Me sinto completamente integrada no estilo de vida desse lugar.

Quais as principais lições que você leva desta experiência de morar fora do Brasil?

Barcelona é uma cidade muito cosmopolita e a convivência com gente de tantos lugares e tantas culturas, te transforma em uma pessoa com menos preconceitos, mais tolerante.

Quais conselhos você daria para quem quer morar fora do Brasil, especialmente, na Espanha? É um bom momento para ir para a Espanha? 

Acho que antes de qualquer grande mudança, fazer um planejamento é necessário. Informar-se de como conseguir legalizar a residência, das possibilidades no mercado de trabalho, ter um plano “B”. Sair do Brasil para trabalhar na Espanha, talvez ainda, não seja o melhor momento. Para seguir estudando, aprender um idioma, conhecer novas culturas ou fugir da violência, recomendo 100%.

Leia outras entrevistas da série “Morar Fora”:

Morar Fora: Uppsala, Suécia, por Patrícia Cordeiro

Morar Fora: Flórida, Estados Unidos, por Lidiane Lins

Morar Fora: Amsterdã, Holanda, por Mara Nogueira

 


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